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A
lei, sinal da aliança
A
promulgação da Lei é um momento fundamental na história
da salvação, caracterizado pela intervenção
explícita de Deus que exprime a parte de Israel na aliança.
O aspecto mais original do "Código
da aliança" é sua premissa: "Eu sou o Senhor teu
Deus, que te fiz sair do Egito, de uma casa de escravidão; não
terás outros deuses diante de mim..." o Deus que se revelou
libertador do povo por ele escolhido livremente como aliado e amigo, indica-lhe
o caminho da liberdade (1ª leitura).
Um pacto que envolve todo o homem
É verdade que o decálogo corresponde
a leis tão "elementares" da sociedade humana, que sem
ele não seria possível uma convivência civil; é
verdade que a fórmula de promulgação, com todo o
ritual de "revelação" e de "entrega"
a um intermediário (Moisés), é análoga à
de outras legislações do antigo Oriente; mas permanece o
fato único de que o legislador é o Deus da história;
e de que a observância das leis assegura a continuidade, da parte
do povo, de uma relação a qual Deus não pode e não
quer deixar de corresponder.
Assim a lei, mais do que uma imposição,
é vista como um dom: palavra de Deus que espera uma resposta; fonte
de bênção para quem, confiando nas promessas de Deus,
a cumpre fielmente; preço do resgate da escravidão e da
alienação do egoísmo; meio de crescimento pessoal
e comunitário; apelo à interioridade e caminho da comunhão
com Deus.
Jesus ratifica a validade da lei mosaica;
no entanto, a supera apelando para a interioridade, a fim de libertá-la
de todo formalismo e reconduzi-la às dimensões da pessoa
e do seu diálogo de amor com Deus. O único mandamento de
Cristo resume toda a lei, pois o próprio Cristo é dele o
modelo mais convincente; nele não há dualismo entre a palavra-vontade
de Deus e a resposta-obediência do homem. Para isto tende todo cristão,
animado pelo Espírito de Cristo: nele não é mais
a lei que manda, mas a liberdade do filho; ele sabe o que quer dele o
Pai e põe sua pessoa a serviço do Reino. Libertado dos preceitos,
mas servo do amor, até o dom supremo de si em plena liberdade.
Deus é fiel aos pactos: o homem, nem sempre
O pacto com Deus só pode ser rompido
pelo homem. Deus é "o fiel". Comungando o pão
eucarístico, selamos nossa aliança pessoal com Deus, no
corpo e sangue, no sacrifício de Jesus Cristo. Essa nossa aliança
com Deus não pode ser uma cerimônia vazia; deve comprometer
toda a nossa vida, para não se derramar em vão o sangue
do Filho de Deus. Uma vez engajados entre os filhos da luz não
podemos mais ter hesitações nem fingimentos, falsa modéstia,
preocupações temerosas; saibamos proclamar: "Cristo
crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos"
(2ª leitura). Não podemos temer as fáceis ironias de
quem escarnece de nós ou o ódio do mundo pela loucura da
cruz, porque como a Cristo (evangelho) "o zelo da vossa casa me devora".
Nossa fé exige a coragem de ser vivida integralmente na nossa vida.
O farisaísmo não morreu
Freqüentemente, nossa aliança
com Deus é reduzida a uma apressada visita dominical a uma igreja
ou a um passeio turístico a algum santuário. O tédio
da monotonia cotidiana abafa muitas vezes os gestos mais entusiastas.
Muitos cristãos são capazes de atos heróicos uma
vez por ano, e depois se deixam enredar nas malhas da esclerose espiritual
e do legalismo. O cristianismo não consta de práticas a
cumprir em determinados momentos. A confissão não é
um problema de estatística. A justiça deve ser aplicada,
mesmo que por isso nos considerem "pouco espertos". Perante
a "lei de Cristo", uma pequena fraude cometida contra um irmão
não é julgada segundo seu valor real, mas segundo a lei
do amor. As pequenas infidelidades endurecem nossa sensibilidade a tal
ponto que não podemos mais ouvir os chamados concretos de Cristo;
e que, imperceptível, mas inexoravelmente, na ânsia de autojustificação,
forma-se em nós outra lei que não é mais a de Cristo.
A lei de Cristo é algo mais do que uma rígida lei pela qual
se possa dizer: "Até aqui e basta". Jesus transforma
a lei em um compromisso de amor e o amor nunca diz: "Basta".
Assim, a lei se toma mais comprometedora. Isso é evidente na perspectiva
em que Jesus põe o juízo: Mt 25, 31-46. Depois de Jesus,
toda falta do homem é uma falta de amor. E nada é mais grave.
Mas, ao mesmo tempo, tudo é pessoal. Comete-se uma falta diante
de um homem e diante de Deus. Mas podemos sempre recomeçar. Contanto
que estejamos em caminho. Que tenhamos fome e sede daquela justiça
que é justiça de amor.
Pe.
José Pereira - Colunista
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