DEUS
VEM PARA QUE VOLTEMOS A ELE
Mc 1, 1-8
Aos
judeus do século VI a.C que permaneceram na Palestina ou aos deportados
para a Babilônia, a palavra do profeta restitui a esperança
e convida à confiança: Deus vem e caminha à frente
do seu povo para reconduzi-lo, livre, da terra da escravidão à
sua própria terra. Bom Pastor, cuida dos fracos e pequenos; Deus
forte, alegra-se em perdoar e renovar todas as coisas. Salvação,
alegria, amor, verdade, justiça, constituem o cortejo do Senhor
Deus. São os bens da aliança, da amizade entre Deus e os
seus (1ª Leitura). Esses bens não provêm de nós,
dos nossos esforços, mas nos são dados por aquele que nos
chama a converter-nos a ele, a fim de que nossos pecados sejam perdoados.
A espera de Deus
Respondendo às objeções de certos fiéis sobre
a volta do Senhor, Pedro afirma: Deus tem uma noção de tempo
diferente da do homem; e acrescenta: Deus é paciente e espera que
o maior número possível de pecadores se converta (v.9)
Ao encarnar-se, Deus leva em conta o crescimento e o comportamento do
homem; não salva sem a fé, sem a conversão; toma
o tempo necessário para partilhar a vida com seu interlocutor (cf
Sb 11, 23-26; Ez 18,23).
Num mundo sujeito à mudança e à espera do “dia
de Deus”, a “santidade de vida” e a “piedade”
dão segurança e tranqüilidade no meio dos elementos
que se “dissolvem” e se “fundem” (2ª leitura).
A santidade da vida não é só objeto do juízo
final, mas já prepara esse juízo; a oração
que sobe do coração não pede só a vinda do
Senhor como um acontecimento improviso, mas o lê desde já
nos episódios da história humana.
Preparai o caminho para o Senhor
Ao se completar o tempo messiânico, João convida a exprimir,
através de um sinal que não é apenas cerimonial,
a vontade de conversão e a esperança dos tempos novos, caracterizados
pela efusão do Espírito Santo. Nesses tempos novos, que
para nós já começaram, embora ainda não totalmente
realizados, o convite à conversão manifesta-se necessariamente
em gestos significativos, “sacramentais” no sentido mais amplo
da palavra. Entre esses há certamente o batismo (dos adultos) e
a penitência, momentos privilegiados de encontro com o Deus que
salva e que perdoa, mas também as atitudes concretas da comunidade
e de cada coração novo. São os que o profeta e João,
hoje presentes no anúncio litúrgico, indicam na imagem de
“preparar o caminho” (evangelho).
Sem dúvida, vistos com olhos profanos podem parecer pobres inúteis;
mas na realidade, nos gestos de um homem e de uma comunidade renovados,
quem sabe ler entrevê “novos céus e nova terra, nos
quais a justiça terá morada estável” (2ª
leitura)
O sacramento da volta
Na linguagem comum o sacramento da penitência se identifica com
“confissão”, e é conhecido com esse nome. Na
realidade, a confissão é apenas um elemento do sacramento
e não é certamente o primeiro nem na ordem nem na importância.
Há uma mentalidade formalista e exteriorizante a respeito desse
sacramento, dos mais centrais da vida cristã, ameaçada de
resvalar lentamente para uma crise perigosa. As motivações
variam muito: vão da recusa do confessor distribuidor automático
de absolvições à recusa do confessor psicanalista.
A acusação individual dos pecados, seguida a absolvição
e de uma leve penitência, é uma solução em
geral demasiado fácil e mecânica; só Poe ter sentido
cristão se for um sinal eclesial de conversão e reconciliação
do cristão pecador. Justifica-se, pois repensar da justa forma
da penitência e da confissão; tanto deve tornar-se mais autêntico,
profundo, vivo e eficaz. A conversão cristã é uma
maturação contínua, um crescimento contínuo
sobre si mesmo, em geral um ato difícil, abrir o caminho para Deus
na própria carne; sofrimento e desapego do cômodo e do habitual;
é mudança de vida levada a sério. Ele expiou na cruz
todos os nossos pecados e depois de sua ressurreição confiou
à Igreja à faculdade de perdoar os pecados.
A celebração do sacramento da penitência não
pode ser “privatizada”; é sempre um gesto ao mesmo
tempo comunitário e pessoal, como comunitário e pessoal
é o pecado. Por isto, em muitas comunidades eclesiais celebra-se,
juntos, este sacramento: “É como se a Igreja inteira tomasse
sobre si o peso do pecador, cujas lágrimas ele deve partilhar em
oração e na dor” (Santo Ambrósio)
Pe.
José Pereira - Colunista
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