DEUS
VEM COMO REDENTOR
Mc 13, 33-37
Um
Deus salvador e redentor nos vem espontaneamente ao pensamento quando
as coisas vão mal e uma situação é humanamente
insolúvel. Mas estará certa essa concepção
de Deus e de sua manifestação no meio de nós? Será
justo pedir à sua onipotência que resolva nossos problemas?
Não seria mais digno o homem aceitar sua derrota e desafiar um
destino adverso com as próprias forças, em lugar de recorrer
à força de Deus? Certamente, impõe-se uma purificação
da imagem que temos de Deus; mas a afirmação de sua transcendência
não leva a concluir que ele não se interesse por nós
de modo concreto e imprevisível como o amor. Ele é um "Deus
dos homens”, não o Deus cósmico distante e perfeito
no seu ser divino. Fez-nos à sua imagem, e por isso a nossa identidade
não pode prescindir de sua fisionomia; ele, que nos deu a vida,
faz parte da nossa história, e por isso nosso futuro só
se cumprirá mediante a realização do seu plano; ele
nos criou livres e por isso não força as nossas decisões,
mas intervém suavemente e espera com paciência que aceitemos
dialogar com ele como pessoas."
Abrirá os céus e fará prodígios
Se Deus é "pai", se é "redentor", por
que permite circunstâncias tão dolorosas e tolera filhos
tão desobedientes? (v. 17). É a eterna pergunta da liberdade
humana sobre a origem do mal, que o profeta (1ª leitura) não
resolve; ele anuncia a intervenção de um Deus que abrirá
os céus e fará na terra prodígios e maravilhas que
recolocarão todas as coisas em seus lugares, castigando os inimigos.
E necessário, pois, confiar em Deus para sair da infelicidade.
Muitas vezes nosso crescimento se faz sem uma referência explícita
a ele, cuja presença discreta e cheia de amor nos envolve completamente;
é de lamentar que sejam sobretudo as situações de
fracasso, angústias e remorso que nos levem a dirigir-nos a ele,
reconhecendo-o como criador, pai e redentor. Na pessoa de Cristo, Deus
se manifestou a nós (2ª leitura) como aquele que se interessou
de tal modo pelos homens que quis participar intimamente do nosso destino,
e assim tornar-se o Deus próximo e familiar (com o risco de não
ser reconhecido pelos seus), para revelar-nos nossa dignidade. O homem-Deus
"Cristo Jesus" nos resgata aceitando ser totalmente disponível
ao plano de Deus, não contar consigo, viver desprendido de toda
segurança para se deixar invadir pelo mistério de Deus e
estar em plena comunhão com ele.
Virá salvar-nos por meio do Filho
"O mundo se apresenta hoje ao mesmo tempo poderoso e fraco, capaz
de fazer o melhor e o pior, enquanto diante dele se abre o caminho da
liberdade ou da escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade
ou do ódio". O cérebro eletrônico oculta talvez
em seus lóbulos mecânicos a solução de todos
os problemas que angustiam o homem da nossa civilização:
as relações trabalho-lazer, produção-consumo,
riqueza-pobreza, fecundidade-mortalidade, progresso técnico-progresso
social, autoridade-liberdade... serão talvez resolvidas por um
cartão perfurado. Nasce aos nossos olhos um novo mundo ordenado
e esterilizado, criado por um homem em plena posse de seus meios intelectuais
e técnicos. Que necessidade há então de um Redentor?
Para remir-nos de quê?
Essa idéia é o resultado de um ingênuo otimismo; cada
dia o homem percebe estar renovando a construção da torre
de Babel: um trabalho frenético sobre as areias movediças
da divisão, do pecado, da morte. O cristão reconhece Deus
como Pai e Redentor, e afirma que não é possível
a libertação do pecado e do mal sem a intervenção
de Deus. Mas desde que o Pai enviou seu Filho ao mundo, o cristão
não espera mais os prodígios de um Deus que restabelece
a ordem permanecendo de fora. Sabe que Deus age através do Filho;
sabe que o "Redentor" colabora com o homem e dá à
sua inserção no mundo um significado de salvação.
Porque, como afirma Paulo (2ª leitura), "nele (Jesus Cristo)
fostes cumulados de todas as riquezas, todas as da palavra e todas as
do conhecimento".
Vigilantes, à espera da sua vinda
Se é assim que Deus vem, então torna-se evidente qual deve
ser nossa atitude: abandonar-nos a Deus, dispor nossa vida na linha do
serviço e da colaboração ao seu plano; não
nos prender ao que é antigo e ultrapassado; estar prontos para
a perene novidade de Deus; não dormir, mas vigiar com amor para
reconhecê-lo em sua continua vinda (evangelho). Em sua vinda definitiva,
quando houver terminado nossa aventura de "pobres", ser-nos-á
revelada sua verdadeira face e nos será dada a plena comunhão
de vida com nosso Deus, o Pai do Senhor Jesus Cristo.
Pe.
José Pereira - Colunista
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