29º.
Domingo do Tempo Comum
Mt 22,15-21
Daí
a César
Diversas,
e às vezes divergentes, são as interpretações
dadas à célebre frase-resposta de Jesus aos que queriam
armar-lhe uma cilada: uma frase de efeito, como que evasiva, com a que
Jesus responde sem se perturbar; uma resposta irônica, como se Jesus
quisesse dizer: só quando se tem que pagar os impostos aparece
o problema da consciência; uma definição precisa dos
limites do campo e das relações recíprocas entre
Estado e Igreja.
De qualquer modo, é claro que o que importa é o reino de
Deus. É o único absoluto a ser buscado, Jesus veio pregar
o reino; esta é a realidade fundamental e clara. Diante deste anúncio,
tudo passa para segundo plano. Com isto, Jesus não quer negar a
função de César, mas quer atingir seus adversários
que não compreenderam sua missão e esquecem a questão
decisiva.
Soberania espiritual ou senhorio temporal?
O trecho é usado hoje, com freqüência, para reafirmar
e dar um fundamento bíblico, revelado, à distinção
e recíproca autonomia entre Igreja e Estado. Muito provavelmente,
a resposta de Jesus não tinha esta intenção: tanto
pelo contexto do relato, que não exigia um pronunciamento sobre
este problema, como pelo contexto histórico de seu tempo, no qual
não se distinguia ainda entre poder político e religioso.
Mas a resposta de Jesus é igualmente esclarecedora, porque indica
uma direção. Os judeus do tempo de Jesus estavam habituados
a conceber o reino, inaugurado pelo futuro Messias, na forma de uma teocracia,
isto é, como domínio direto de Deus, através de seu
povo, sobre toda a terá. A palavra de Jesus revela a existência
de um reino de Deus na história, no qual é possível
a todos, não só aos judeus, entrar desde já, sem
esperar que se inaugure um hipotético reino político de
Deus em toda a terra. De fato, o reino de Deus tanto é possível
dentro de um reino pagão como no quadro de uma teocracia, pois
não se identifica com nenhum dos dois. Revelam-se assim dois modos
qualitativamente diferentes de domínio e de sabedoria de Deus no
mundo: a soberania espiritual, que constitui o reino de Deus e que ele
exerce diretamente em Cristo, e o senhorio temporal, que ele exerce indiretamente,
através do livre jogo das causas segundas.
A tarefa do cristão no mundo
A palavra de Jesus leva nossa reflexão a um dos problemas mais
importantes e cruciais dos cristãos de hoje. O homem moderno tem
a profunda convicção de lhe caber uma tarefa histórica
e desempenhar na terra, tarefa proporcional à sua possibilidade
cada vez maior, e que implica um real domínio sobre o universo.
O fim é este: a promoção da comunidade humana no
meio d e uma “cidade” cada vez mais fraterna. Esta tomada
de consciência é acompanhada às vezes de uma crítica
amarga da religião, considerada a responsável pela secular
alienação dos homens. Muitos assumem perante a religião
uma atitude de desconsideração, como se ela não tivesse
nenhuma contribuição positiva a oferecer.
A fé cristão, vivia integralmente, longe de sugerir demissão
e evasão frente as tarefas terrestres do homem, ajusta os que crêem
a assumir suas responsabilidades na conquista dos objetivos que se impõem
à consciência moderna. Os apelos do mundo atual encontram
um eco cada vez mais profundo em vastas camadas do povo cristão,
e felizmente não são raros os cristãos coerentes
que assumem os papéis da promoção, libertação
e construção de uma cidade terrestre mais justa e humana.
O Vaticano II dedicou uma parte importante de seus trabalhos à
análise das preocupações do homem do Século
XX, problemas em aparência mais profanos que religiosos, de tal
modo que as reticências ou ausências do cristão de
ontem em relação ao seu compromisso com o mundo, deveriam
ser superadas.
A construção da cidade terrestre
Entretanto, permanece uma pergunta: a construção da cidade
terrestre é uma tarefa importante, mas não será ela
caduca? Construindo a cidade dos homens contribui-se ou não para
a edificação do reino de Seu? Não serão dois
reinos diversos?
A esperança cristã não se realiza, certamente, em
plenitude, senão no mundo futuro. Contudo, ela manifesta desde
já sua eficácia: é uma força imensa no mundo,
é um fermento que o faz levedar, é um sal que dá
sentido e sabor ao esforço humano de libertação,
ao empenho temporal. Não é alienação, não
é álibi. Não existem duas esperanças: uma
terrena e outra celeste; a esperança é uma só: diz
respeito à realidade futura, mas através do empenho cristão,
a antecipa na realidade terrestre.
Pe.
José Pereira - Colunista
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