Nossa
Senhora Aparecida (Padroeira do Brasil) Fazei tudo o que ele vos disser!
O episódio está dividido em duas partes: vv. 1-5 e vv. 7-10. O v. 6, que descreve as talhas vazias, funciona como eixo de todo o episódio e separa as duas partes. Na primeira, temos uma introdução (vv. 1-2) e a intervenção da mãe de Jesus, nomeada três vezes (vv. 1.3.5). Na segunda (vv. 7-10), a figura central é o mestre-sala, também ele nomeado três vezes (vv. 8-9). Jesus e os serventes são como que o fio condutor de todo o episódio. Aparecem tanto na primeira parte quanto na segunda. O v. 11 é a interpretação do fato. a) Vv. 1-5: A mãe de Jesus é a personificação da fidelidade a Deus Após a indicação do tempo e lugar em que é celebrado o casamento (não se trata de pura indicação cronológico-geográfica, mas teológica), o evangelista acrescenta: “a mãe de Jesus estava lá” (v. 1) Com isso João quer dizer que ela pertence à antiga Aliança. E o seu papel será esclarecido nas ações que ela cumpre a seguir. O v. 2 põe em cena Jesus. O Messias é convidado a participar da Aliança antiga. Entrando em cena, põe em ação um movimento irreversível. O vinho, sinal da alegria e do amor conjugal (cf. Ct 1,2; 7,10) vem a faltar na festa de casamento (v. 3). Isso significa que a alegria e o amor devem ser recriados pelo Messias, o novo esposo da humanidade. A intervenção da mãe de Jesus tem dois aspectos: por um lado mostra a Jesus que “eles não têm mais vinho” (v. 3; estava lá mas toma distância) e, por outro, dá ordem aos serventes: “façam tudo o que ele mandar” (v. 5; não apenas toma distância, mas estimula a buscar o novo que vem a obediência a Jesus). A mãe de Jesus personifica aqui todos os que conservaram a fidelidade a Deus e a esperança em suas promessas. Ela constata que os que não aderem a Jesus “não têm mais vinho”. Para superar esse impasse é preciso aceitar Jesus como Messias, o esposo da comunidade e da humanidade: “Façam tudo o que ele mandar”. Estranho
é o fato de Jesus se dirigir a sua mãe com o apelativo “mulher”.
Essa forma de tratamento não se encontra no Antigo Testamento e
nem na literatura rabínica. Por isso somos levados a considerar
essa mulher como figura simbólica, que supera a individualidade.
É a mãe/Israel. Jesus faz-lhe ver a necessidade de romper
com o passado (ela pertence à antiga Aliança). Jesus não
é um a mais, e sim o definitivo, o único, aquele que traz
a novidade radical. Essa novidade está ligada à “hora”
de Jesus (v. 4; cf. 7,30; 8,20; 12,23.27; 17,1), que será a sua
morte na cruz. Nesse sentido, o primeiro sinal (Caná) já
aponta para o grande sinal do Evangelho de João: Jesus que dá
a vida porque ama até às últimas conseqüências
do amor. b) Vv. 7-10: Dando o melhor vinho, Jesus se revela o esposo da humanidade Jesus manda encher as talhas com água. Assim ele passa a oferecer a nova “purificação”, que não irá depender da Lei, pois as talhas não irão conter o vinho novo (observe o que diz o v. 9b: “Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água). A segunda ordem de Jesus: “Agora tirem e levem ao mestre-sala” (v. 8a) confere sentido e valor ao casamento, isto é, ao relacionamento entre Deus e a humanidade. Esse relacionamento íntimo tem como única razão de ser o amor total e a fidelidade plena, representados pelo vinho novo e abundante (mais de seiscentos litros!) que o Messias-esposo oferece. O mestre-sala é símbolo dos que não reconhecem o dom messiânico que Deus faz em Jesus, o Messias-esposo da humanidade. Ele prova o vinho, constata que há novidade radical no que é apresentado, mas atribui o fato ao noivo: “Você guardou o vinho bom até agora” (v. 10). Não reconhece que, no projeto de Deus, o melhor vem depois, isto é, com Jesus. c) V. 11: O sinal manifesta a glória de Jesus O evangelista afirma que em Caná Jesus deu início a uma série de sinais. O sinal de Caná é o protótipo dos demais que se seguirão. Eles têm dupla finalidade: 1. Manifestar a glória de Jesus, isto é, fazer ver que Deus condensou nas palavras e ações do Filho todo o seu projeto de amor fiel (1,14), desde o início até a “hora” de Jesus (17,1). Jesus é a glória de Deus, ou seja, a revelação e mediação últimas do amor sem limites de Deus; 2. Conferindo credibilidade a Jesus enquanto mediador do amor divino, os sinais visam a suscitar a fé dos discípulos que acolhem Jesus e se comprometem lealmente com ele: “seus discípulos acreditaram nele” (v. 11b). d) Quem é a esposa do Messias-esposo? Lendo
o episódio das bodas de Caná (palavra que significa “adquirir”),
percebe-se logo o engano em que caiu o mestre-sala: crê que o melhor
vinho tenha sido oferta do noivo. O leitor do evangelho e os serventes
sabem muito bem que Jesus é quem dá o vinho novo –
o amor sem limites –, pois ele é o Messias-esposo da humanidade.
A mensagem, contudo, vai além. O episódio mostra também
quem é a esposa do Messias-esposo: ela está representada
na “mulher”, a mãe de Jesus (que por sua vez representa
o Israel que reconheceu o Messias), nos serventes que sabem de onde vem
o vinho novo (v. 9) e que obedecem a Jesus e nos discípulos que
acreditam nele (v. 11b). É assim que o Messias-esposo vai conquistando/adquirindo
(“Caná”) para si uma esposa.
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