26º.
Domingo do Tempo Comum
Mt 21, 28-32
ELES VOS PRECEDERÃO NO REINO DE DEUS
As
três parábolas lidas nos evangelho deste e dos dois domingos
seguintes, tratam de um único tema: a rejeição do
povo judeu que não quis escutar Jesus, e a sua substituição
pelos pagãos.
Ninguém é marginalizado por Deus
A parábola dos dois filhos justifica a posição do
Cristo diante dos “desprezados”, esta nova categoria de pobres.
Cristo dirige a parábola aos sumos sacerdotes e anciãos,
como faz, com outra do mesmo teor, aos fariseus (fariseu e publicano:
Lc 18,9); replica a todos os que se escandalizam com sua predileção
pelos pecadores, dizendo-lhes que estes estão mais próximos
da salvação do que os que se consideram justos; entra em
casa de Zaqueu, que durante anos usurpou os vencimentos de todos, deixa
que uma prostituta lhe lave os pés, protege a adúltera contra
os “puros” que a queriam apedrejar.
Sua vida deixa a Deus a possibilidade de manifestar-se como verdadeiramente
é. Estas situações revelam, no fundo, a liberdade
de Deus. A parábola se dirige, pois, aos que se fecham para a Boa-nova,
aos que não querem reconhecer a identidade de Deus em nome da própria
justiça e se consideram pagos por sua própria suficiência.
As prostitutas haviam dito “não”
A fidelidade a Deus e a justiça não se julgam pelo dizer
“sim” ou pela vinha que se possui (figura da pertença
racial ao povo eleito!), mas pelos fatos. Trata-se de eliminar as discriminações
sociais que a tradição hebraica elaborou. O que importa
não é agir como a tradição ensina. É
necessário ter coragem de sujar as mãos e de se arriscar
na busca de novos valores mais próximos da liberdade, do amor,
da felicidade do homem. É pelas obras que se julga a pertença.
“Nem todo que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos
céus” (Mt 7, 21). As palavras, as ideologias podem enganar,
podem ser uma ilusão. Descobre-se a verdade do homem por suas obras.
Elas não dão margem a equívocos. Só então
o homem mostra o que é. Compreendemos então aquela palavra
de Jesus, que provoca escândalos aos ouvidos dos que se pretendem
bons: “Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precederão
no reino de Deus”. Oficialmente, conforme as categorias religiosas
e os critérios morais exteriores da época, eles tinham dito
“não”, mas de fato o que importa é sua profunda
disponibilidade: a vontade de cumprir, não com palavras, mas com
fatos, as obras de penitências.
Deus não decidiu, um dado momento da história, rejeitar
Israel e adotar as nações pagãs. Foi o comportamento
perante o Messias que os fez perder o papel que desempenhavam na ordem
da mediação. O modo como viviam o seu “sim”
à Lei os levou a dizer “não” ao evangelho.
Para além das práticas
Existe ainda uma concepção exterior e quantitativa da religiosidade
dos grupos e das pessoas (como se só fosse possível medir
a religiosidade pela pertença sociológica ou a presença
a certas práticas religiosas facilmente verificáveis: missa,
sacramentos, orações, devoções, esmolas...)
Contribuem para provocar este equívoco certas pesquisas sócio-religiosas
que codificam convencionalmente uma escala de religiosidade e de pertença
eclesial que, se de certo ponto de vista obriga a abrir os olhos para
situações penosas, de outro está bem longe de esgotar
o complexo fenômeno da religiosidade, tanto de grupo como individual.
Para além da prática e da pertença exterior e jurídica,
existe uma presença e um evidente influxo cristão e evangélico
em camadas de populações aparentemente marginais e alheias.
A religião, como é vivida pelos cristãos, apresenta
diversos níveis e modalidades de experiência. Pode ser vivida
como uma soma de práticas, de devoções, de ritos,
como fins em si mesmos; como uma visão do mundo e das coisas; como
um critério de juízo sobre pessoas, valores, acontecimentos.
Pode manifestar-se como código moral e norma de ação
ou como integração fé-vida, isto é, como síntese
no plano do juízo e da ação, entre a mensagem do
evangelho e as exigências e os esforços da própria
vida pessoal e comunitária.
O cristão opera a integração fé-vida. Isto
é, o “sim” de sua fé se torna o “sim”
de sua vida; a palavra e a confissão dos lábios se tornam
ação e gesto das mãos. Assim, a discriminação
entre o “sim” e o “não” não passa
través das práticas e da observância das leis, mas
através da vida.
Pe.
José Pereira - Colunista
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