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22º.
DOMINGO DO TEMPO COMUM
Mt 16, 21-27
O CAMINHO
DA CRUZ
A
1ª leitura é um trecho das "confissões",
amarguradas e dolorosas, de Jeremias, por causa da hostilidade que o profeta
encontra no exercício do seu ministério. São textos
característicos de Jeremias e muito importantes, porque estão
na origem de uma tradição literária sobre o tema
do profeta perseguido.
Um ministério incômodo
O ministério profético, sobretudo, não é uma
vocação à tranqüilidade: é incômodo
para quem fala e para quem ouve. Jeremias desejaria subtrair-se à
ingrata tarefa, mas a palavra de Deus queima-o por dentro com tal veemência,
que não pode contê-la. Sua alma é terreno de batalha,
onde se batem forças dificilmente conciliáveis entre si:
Deus, o mundo, a busca de si mesmo. Só resta ao profeta uma possibilidade:
deixar-se seduzir por seu Senhor.
Diferente é a atitude de Jesus. Para ele, o sofrimento, a paixão
e a morte não são um escândalo; são, ao contrário,
de certo modo, uma conseqüência da situação de
pecado do homem. A morte é a "sua hora" que se aproxima.
É necessário que vá a Jerusalém e sofra muito
por parte dos anciãos e dos sumos sacerdotes. Nas palavras de Jesus,
o sofrimento e a morte não são simples previsões
de um fato, baseadas nas circunstâncias (recusa por parte dos chefes
do povo); são algo que "deve" vir, um momento especial
e determinante já prefigurado e prenunciado pelos profetas no plano
salvífico de Deus.
Com estas afirmações, Jesus se afasta completamente das
concepções messiânicas comuns do seu tempo, partilhadas
também por seus discípulos. Não é um messias
político, nem um simples profeta, embora seja o enviado para dar
sua vida. É sintomática a reação de Pedro
a esta revelação de Jesus; ele que, inspirado pelo Espírito,
havia confessado a missão messiânica e a filiação
divina de Cristo, rejeita categoricamente - e é repreendido - a
imagem de um messias sofredor, de um servo crucificado.
O único caminho para realizar o profundo valor do homem
A renúncia à própria vida e o sofrimento, porém,
não são vistos pelo evangelho como uma necessidade à
qual nos resignamos nem como uma heróica, mas desesperada oblação
à morte. São consideradas, antes, como o caminho para pôr
em relevo o profundo valor do ser humano. As palavras de Jesus nos colocam
diante de dois modos diferentes de conceber a vida: um, que raciocina
segundo a "carne e o sangue", e outro que vê as coisas
e os acontecimentos com os olhos de Deus.
Duas mentalidades opostas
Há quem espere a salvação do sucesso terreno, das
coisas, de "ganhar o mundo inteiro", e, portanto, organize sua
vida e sua atividade neste sentido; e há quem espere a salvação
das mãos de Deus e a ele se entregue totalmente, vivendo na fidelidade
à sua palavra e a seu chamado, embora aos olhos do mundo esteja
"perdendo sua vida" e indo ao encontro do fracasso. As duas
mentalidades não dividem os homens em duas categorias opostas;
podem conviver dentro da mesma pessoa: em Pedro, por exemplo, que está
pronto para confessar Jesus messias e filho do Deus vivo, e imediatamente
depois se toma "satanás", porque procura afastar Jesus
de sua missão e da vontade de Deus. Há também outro
modo de trair a palavra de Jesus: é aceitá-la no plano teórico
ou da afirmação verbal e depois desmenti-la precisamente
na práxis e na vida. Quantas vezes ouvimos e repetimos sem hesitação
as tão exigentes e comprometedoras afirmações de
Jesus: "Se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz...
"Quem quer salvar sua vida perdê-la-á. "De que
serve ganhar o mundo inteiro"? Às explosivas afirmações
evangélicas, opomos continuamente as barreiras de nosso comodismo
e da falta de vontade de conversão, esvaziamo-las de sua radicalidade,
reduzimo-las a slogans, a maneiras de falar paradoxais, mas inócuas.
A técnica do compromisso
São típicos de certos cristãos alguns comportamentos
e atitudes, individuais e comunitários, em que a política
prevalece sobre o evangelho, e o "modo de raciocinar conforme os
homens" vence o "modo de raciocinar conforme Deus". Segundo
certos cristãos, acostumados a condescender com tudo, pode-se celebrar
a eucaristia, anúncio da morte e ressurreição de
Cristo, sem entrar em comunhão com Cristo e com os irmãos;
pode¬-se confessar (a metanóis, a mudança radical de
lógica e de comportamento!) sem se converter; poderíamos
julgar-nos cristãos e aceitar só uma parte de Cristo...
Pe.
José Pereira - Colunista
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