Reflexão do XVIII Domingo do tempo comum
Mt 14, 13-21 

A FOME DO MUNDO

O trecho evangélico deste domingo pertence a um complexo que os exegetas designam convencionalmente com o nome de "seção dos pães", porque gira em tomo da narrativa das duas multiplicações dos pães. Toda seção é concebida de modo a que Jesus apareça como o Novo Moisés, que oferece um maná bem superior ao antigo (Mt 14,13-21: deste domingo), domina as águas do mar como Moisés (Mt 14,22-23: 1º domingo), livra o povo do legalismo em que caíra a lei de Moisés (Mt 15,1-9) e abre o acesso para a terra prometida não só aos membros do povo eleito, mas também aos pagãos (Mt 15,21-28: 20º domingo).

 A abundância, sinal do tempo messiânico

 No evangelho de hoje é bem Fácil ver uma imagem e uma revelação da Igreja: nela se realiza a grande abundância dos bens que era a característica dos tempos messiânicos. Tem-se essa comunhão de bens no banquete, que é sinal de comunhão de vida e de participação nos bens de Deus. Assim, em poucos traços, Mateus apresenta a Igreja como comunidade messiânica escatológica. E a apresenta em sua vitalidade e fecundidade: toda realizada na fraternidade dos discípulos em torno de Cristo para servir a muitos. É também muito significativo que o evangelista use, na narrativa da multiplicação dos pães, o mesmo vocabulário do relato da ceia eucarística.
 O episódio de Cafarnaum é visto à luz da Última Ceia, como antecipação e promessa. Até o fato de os fragmentos que restaram serem recolhidos em "doze cestos", além de indicar a abundância messiânica não pode deixar de ser uma referência simbólica a vida da Igreja. O banquete de Cafarnaum ultrapassa sua ressonância histórica de prodígio para alimentar uma multidão faminta: é o símbolo da comunidade dos "últimos tempos”, que se assenta à mesa com Cristo, e é ao mesmo tempo sinal da presença permanente de Cristo para dar à humanidade de todos os tempos o verdadeiro pão de vida.
 A Igreja é o lugar, e a eucaristia é o momento privilegiado, em que se descobre a força de Cristo e em que se obtém a capacidade de repetir o prodígio por ele realizado.

O sinal de um pão de vida eterna

 Jesus saciou a fome dos homens. O Reino de Deus, cuja vinda Jesus proclama, não é deste mundo, mas está em relação direta com ele. Não se pode pensar que ele não se manifeste também como uma resposta efetiva à necessidade fundamental do homem, a necessidade de pão. Mas a multidão seguiu Jesus para ouvir sua mensagem. Ora, a Boa-nova que ele proclama jamais se poderá reduzir a uma saciedade corporal. O essencial é outra coisa, e a multiplicação dos pães não é mais que sinal de um pão de vida que sacia para a eternidade. O pão divino que sacia o homem torna-o capaz de amar mais os seus irmãos; suscita nele um dinamismo humano que o leva a prover de pão os que dele são privados. O milagre da multiplicação dos pães é, para o cristão, um sinal e um apelo.
 O pão cotidiano

 A participação no pão de vida se manifesta traduzindo-se necessariamente na vontade firme de tentar tudo a fim de que os famintos sejam saciados, os que têm sede possam beber, os que estão nus possam vestir se etc. (Mt 25). A participação na ceia eucarística se toma, para o cristão, fonte de um esforço de promoção humana no qual todos e cada um sejam reconhecidos em sua dignidade fundamental de pessoas, no sentido de uma só grande família.
 A celebração eucarística introduz cada vez mais profundamente os cristãos na comunidade eclesial, que é comunidade de irmãos e de pobres. O pão que não perece é distribuído com abundância, mas sob aparências muito modestas, como um verdadeiro alimento de pobres. Os que participam desta ceia são fortalecidos pelo pão de vida que os une como irmãos e os liberta do apego aos bens caducos e de suas escravidões. Ao mesmo tempo, a eucaristia torna aqueles que crêem cada vez mais disponíveis e mais livres para o único serviço: o serviço de Deus que se identifica com o serviço de todos os homens.


Pe. José Pereira - Colunista
07/08/2008 - Atualizado em 07/08/2008 - 14h50
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