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Reflexão
do XVI Domingo do tempo comum
Mt 13, 24-43
A PACIÊNCIA
Uma
tendência natural dos homens é a de dividir a humanidade
em duas grandes categorias: os bons de um lado, os maus de outro. Esta
tendência existe também no plano religioso. Invocamos bênçãos
sobre nós mesmos, sobre nossa família, nossa nação;
as maldições caiam sobre os outros, os inimigos, os que
se opõem a nós.
A paciência de Deus...
De uma leitura superficial da Bíblia (especialmente dos Salmos)
poder-se-ia talvez deduzir a concepção de um Deus impaciente,
que queima as etapas". Os apelos à vingança são
bastante freqüentes (1Rs 18,40; SI 82 e 108). Mas as passagens mais
importantes da Bíblia desmentem essa impressão. Elias, cheio
de zelo, compreende, às próprias custas, que Deus não
está no furacão ou no terremoto; está na brisa leve,
no sopro do vento mais delicado (1 Rs 19,9-13). Tiago e João são
censurados por causa de seu desejo de fazer cair raios sobre os samaritanos
que não acolhem Jesus (Lc 9,51-55; Mt 26,51). A Escritura é
o livro da paciência divina, que sempre adia o castigo do seu povo
(Ex 32,7-14). Os profetas falam de cólera de Deus. Mas a cólera
não é o último e definitivo momento da manifestação
divina: o perdão sempre vence. Javé é rico em graça
e fidelidade, e sempre pronto a retirar suas ameaças, quando Israel
volta novamente ao caminho da conversão (1ª leitura).
Jesus inaugura o reino dos “últimos tempos”, não
como juiz que separa os bons dos maus, mas como pastor universal, vindo
antes de tudo para os pecadores. Não exclui ninguém do reino;
todos são a ele chamados, todos podem aí entrar. Em todas
as atividades da sua vida, Jesus encarna a paciência divina. Nenhum
pecado pode cortar irremediavelmente as pontes de comunicação
com a força misericordiosa de Deus (evangelho). A Igreja, corpo
de Cristo, tem por missão encarnar entre os homens a paciência
de Jesus. Seu papel é revelar, no mundo, a verdadeira face do amor.
Na terra, o trigo está sempre misturado com o joio, e a linha de
demarcação entre um e outro não passa pelas páginas
dos registros paroquiais ou pelas fronteiras dos países; está
no coração e na consciência de cada homem. Deve-se
sempre recordar que a separação entre os bons e os maus
só será feita depois da morte.
...de um Deus misericordioso
Não há dúvida de que a idéia que cada um faz
de Deus, condiciona seu comportamento diante de Deus (adoração,
oração...) e nas suas relações com o próximo.
Isto significa que somos levados a fazer das nossas relações
com os outros um prolongamento das que temos com Deus. A palavra de Deus
(1ª leitura e evangelho) faz uma descrição muito clara
do conceito e da imagem de Deus. Deus aceita o escândalo do homem
limitado e mau, e Cristo parece até mesmo provocá-lo com
seu comporta-mento, tratando livremente com bons e maus, Justos e pecadores.
Não anuncia uma comunidade de puros e santos. E paciente com todos
e deixa aos pecadores tempo para amadurecer sua conversão.
Portanto, não nos deve perturbar o escândalo de uma Igreja
medíocre, pecadora, comprometida, distante do ideal evangélico
de pureza, de santidade, de desapego. Sendo feita de homens e vivendo
mergulhada no mundo, a Igreja corre continuamente o risco de se contaminar
com o mundo e ver crescer em suas fileiras o joio ao lado do trigo. Alguns
cristãos desejariam recorrer aos meios violentos e decisivos: excomungar
os membros mais fracos, queimar os hereges, lançar violentamente
em face dos cristãos e não-cristãos as exigências
do evangelho, com a política do "comigo ou contra mim”...
O fundamento dessas atitudes está em duas distorções.
Uma idéia errada de Deus que seria um Deus ciumento dos homens,
pronto a lançar seus raios; portanto, um Deus avarento, mesquinho,
não um Deus Pai misericordioso. É uma falta de confiança
em Deus e de esperança, que gera medo e insegurança.
...respeita as etapas de crescimento e amadurecimento
No entanto, o Reino de Deus tolera os maus e os pecadores, porque tem
uma inabalável confiança na ação de Deus que
sabe esperar a livre decisão do homem. João XXIII escreveu:
"A mansidão é a plenitude da força". Não,
pois, uma aceitação passiva dos acontecimentos, nem certo
desleixo, mas uma atitude construtiva de tolerância, paciência
e respeito pelos tempos e pelas etapas de crescimento, tanto no interior
da vida das comunidades como no de cada pessoa, e uma atenção
ativa aos momentos da graça e aos sinais dos tempos, que surgirão
no instante preciso.
Pe.
José Pereira - Colunista
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