| Reflexão
do XV Domingo do tempo comum
Mt 13, 1-23
A PALAVRA
"Têm
boca e não falam" (Si 113 B, 5). Esta sátira dos "ídolos
mudos" acentua, por contraste, um dos traços mais característicos
do Deus vivo. Ele fala aos homens. Revela-se não só na linguagem
silenciosa da natureza e dos sinais das criaturas; "fala" por
suas intervenções históricas de salvação
e misericórdia, de apelo e castigo. Fala no Antigo Testamento,
através dos profetas, seus mediadores privilegiados e seus porta-vozes.
Fala-lhes em sonhos e visões (Nm 16.6); revela-se nas inspirações
pessoais (2Rs 3,15); a Moisés fala "face a face" (Nm
12,8).
Palavra que é experiência de vida
No Antigo Testamento, a palavra de Deus é, antes de tudo, um fato,
uma experiência: Deus fala diretamente a homens privilegiados e
por meio deles a todo o seu povo. A centralidade da palavra de Deus no
Antigo Testamento prepara o fato do Novo Testamento, que vem transtornar
o mundo, onde esta palavra - o Verbo - se toma carne. As leituras de hoje
nos convidam a aprofundar o tema da palavra. Na história da Igreja,
as épocas de "aggiornamento" sempre acarretaram uma revalorização
da escuta e do confronto com a palavra de Deus. É o que está
acontecendo hoje. Prova-o o fervor de obras provocadas pelo Concílio,
e o confirma a reforma litúrgica que se esforça por restituir
à celebração da palavra o lugar que lhe compete.
Hoje ainda, como no tempo de Jesus, é a palavra que convoca e reúne
a Igreja, em torno do Pai, e é no aprofundamento da palavra que
os cristãos tomam consciência de ser família de Deus,
seu novo povo de homens salvos. É também a atitude perante
a palavra (indiferença, recusa, desprezo, acolhimento), que define
a nossa posição no Reino de Deus (evangelho).
Indiferença e não-escuta da palavra
À atitude de não-escuta ou de rejeição da
palavra de Deus no tempo de Jesus, corresponde em nossos dias a de indiferença
e incompreensão por parte do homem moderno. As vezes, os pastores,
os pregadores e missionários de hoje dão a impressão
de estar falando uma língua estrangeira. Os próprios cristãos
têm a sensação de que há uma espécie
de dissociação entre sua vida de cada dia e a palavra que
lhes é anunciada na assembléia eucarística; esta
lhes parece demasiado ligada a outros tempos, estática e sem impacto
sobre a vida real. Será a palavra de Deus que está sendo
questionada? Ou será o mundo e o homem moderno que ainda não
conseguiram sintonizar essa palavra?
No decorrer dos séculos do cristianismo, a teologia da palavra
pôs a tônica quase exclusivamente na proclamação
da palavra. A palavra era objeto de uma pregação: um "dado"
que deve ser fielmente entregue, transmitido como um depósito precioso.
A vida do cristão, sua experiência cotidiana só era
vista como um terreno em que a palavra era posta em prática. A
experiência, a vida, a existência concreta não eram
vistas como "falando", nem como reveladoras de novos aspectos
e significados da ¬palavra. Deus só falava quando a palavra
era proclamada, quando as Escrituras eram lidas e comentadas.
O acontecimento como palavra
De algum tempo para cá vem se verificando mudança na consideração
e na compreensão da palavra de Deus. Descobre-se que o Deus da
fé fala antes de tudo no acontecimento, isto é, através
da história, da vida vivida pelo povo de Deus, empenhado na aventura
única dos homens. Na práxis pastoral, e sobretudo na catequese,
a experiência do homem é assumida cada vez mais completamente,
não só como instrumento didático ou como suporte
psicológico, mas realmente como o lugar privilegiado onde a palavra
de Deus se manifesta em toda a sua riqueza e força. Uma catequese
entendida como Deus que fala e o homem que escuta, é gradualmente
substituída por uma catequese mais encarnada nas situações,
mais atenta aos problemas do homem, isto é, mais "antropológica",
que poderemos exprimir do seguinte modo: O homem interroga e Deus responde.
Dá-se total inversão de perspectivas, em favor de compreensão
mais profunda da palavra de Deus. A mensagem deve iluminar a existência.
A experiência não é posta a serviço da mensagem
para ilustrá-la, mas, antes, a mensagem é utilizada para
conferir à existência toda a significação que
tem na fé. Só assim a palavra é verdadeiramente anunciada,
porque só assim incide profundamente na experiência do homem
de hoje.
Pe.
José Pereira - Colunista
14/06/2008 - Atualizado em 16/06/2008 - 15h02
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