A SABEDORIA DO DESAPEGO

     Estava eu, alegre e tranqüilo, em uma tarde quando em meio as inúmeras revistas de "curiosidades sociais" - para não ser deselegante e classificá-las pelo que realmente são: fofocas, me deparo com uma interessante notícia (sim, havia algo de interessante entre elas!): "D. Lily abre mão de suas lembranças". De início, levei um baita susto. Parei, reli a chamada do artigo, se é que podemos assim denominá-lo; eu tinha entendido corretamente. Lily Marinho iria leiloar móveis, obras de arte e jóias, dentre outros. Pausa para reflexão.

     Confesso que a notícia de que D.Lily iria se desfazer de seus pertences acumulados em mais de meio século em um de seus apartamentos e fazendas, me deixou positivamente surpreso. Tudo bem que decidiu fazê-lo só aos 87 anos de vida e apenas para não alimentar disputas familiares em torno de sua herança, mas não deixa de ser um grande passo para uma mulher com uma bagagem dessas.

     Comecei a pensar sobre uma das sabedorias que o budismo apregoa: o desapego. Ou seja, segundo o budismo, o ser humano não se tornará um ser pleno e feliz enquanto se mantiver aprisionado em seus próprios pensamentos e sentimentos, enquanto não possuir generosidade suficiente em sua alma para abandonar coisas, lugares, pessoas e idéias que crê serem de sua propriedade.

     Li, em algum lugar, que o maior exemplo de desapego vêm das abelhas; que logo após de construírem a colméia, abandonam-a. Mas não a destroem, não a deixam sem vida. Ao abandonar a colméia, deixam para trás também todo o alimento que fabricaram, sem se preocupar com qual destino o mesmo terá. Apenas se vão, sem agregar nada ao fato de já terem construído algo.

     O ser humano, ao contrário, constrói tudo para si. E, a sociedade na qual vivemos atualmente, apregoa a expansão do eu, o indivudualismo em excesso, o egoísmo até suas últimas conseqüências. Somos compelidos a crescer financeiramente, a termos reconhecimento social, a amontoar objetos desnecessários e a consumir com uma avidez cada vez mais impressionante sem nos questionarmos o real sentido de tudo isso.

     Não, não precisamos naufragar com pesos exacerbados em nossa vida. Precisamos, sim, colecionar sonhos encantadores, amigos verdadeiros, histórias emocionantes, amores memoráveis, verdades duvidosas. Precisamos ser mais honestos conosco, mais íntegros nas relações, mais leais para com nossos projetos, maiores em nossas aspirações, grandes em nossas esperanças... Para ultrapassarmos a mediocridade que paira nesse tão vasto mundo. Precisamos ser mais como um rio que corre, passando por tudo e tudo vivenciando de maneira intensa e diversa e precisamos igualmente deixar que outros passem por nós também, nos atravesse com todo o seu interior e nos preencha de alguma forma. Precisamos devolver ao mundo a abundância que ele nos proporciona. Precisamos exercitar mais, muito mais, o exemplo das abelhas.

Pe. José Pereira - Colunista
22/06/2008 - Atualizado em 24/06/2008 - 12h05
AJSGRAMORE.COM – Suporte Site AJS
CONTATO: ajsgramore@ajsgramore.com

Voltar l Mural l Contato l Cadastro l Por dentro da AJS l Boletim l Reflexão