Reflexão do XI Domingo do tempo comum
Mt 9, 36-10.8

UM POVO DE SACERDOTES

Uma palavra-chave unifica as leituras deste domingo: "povo de sacerdotes" (1ª leitura). O autor imagina o povo de Israel no conjunto das nações, como a tribo sacerdotal no povo eleito. Todas as tribos pertencem a Deus, mas só os sacerdotes se aproximam dele. Assim, toda a humanidade é propriedade de Deus, mas só o povo eleito pode encontrá-lo na liturgia e na Palavra, estar diante dele como representante de toda a humanidade e ser "sinal" da vontade divina para os povos. Os acontecimentos do Êxodo e do Sinai servem principalmente para a "eleição" do povo e implicam uma separação (v. 5), que se concretiza num estilo de vida particular, que ajuda a testemunhar o desígnio de Deus para o homem. Esta consagração não isola o povo, mas dele faz um "sinal" da humanidade diante do Senhor, e testemunho do Senhor diante das nações.

O início de um povo novo

No evangelho são apresentados os inícios do novo "povo sacerdotal". Os apóstolos, eleitos e chamados diretamente por Jesus, são os fundamentos deste povo que se reúne em torno do novo Moisés. Este povo não é só "sinal" e depositário da nova aliança entre Deus e a humanidade, mas é um povo de "missionários", de "anunciadores". Assim como faz com que os pescadores chamados se tornem pescadores de homens, Cristo convida os semeadores a se tomarem semeadores espirituais. O dinamismo missionário e o serviço ativo do anúncio são as características do novo povo.

Diversamente dos rabinos de seu tempo, que se cercavam de alguns discípulos numa escola ou à porta da cidade, Jesus quer ser "rabbi" itinerante. Não se trata de esperar que o ouvintes venham a ele; é preciso ir ao seu encontro e aproximar-se deles em sua situação de vida.

Cristo não é, pois, como os sacerdotes do templo, que recebem matéria de sacrifício e dinheiro dos fiéis sem ocupar-se de sua salvação. Não é tampouco como os fariseus que se ocupam em primeiro lugar com as elites. Vai em busca das "ovelhas perdidas" de Israel: perdidas e abando¬ nadas. Em seu tempo, a missão só se destina às ovelhas de Israel. Jesus exclui, então, os pagãos e os samaritanos, mas, com sua morte e ressurreição, seu anúncio se estenderá até os confins do mundo.

A Igreja, comunidade sacerdotal.

Este povo tem por chefe Cristo; tem por condição a dignidade e liberdade dos filhos de Deus, nos corações dos quais habita o Espírito Santo; tem por leio novo preceito de amar como o próprio Cristo nos amou; tem por fim o Reino de Deus a ser dilatado por toda a terra; é para toda a humanidade um germe de unidade, de esperança, salvação; é instrumento de redenção para todos e caminha rumo à cidade fatura; é sacramento visível dessa unidade de salvação (cf LG 9b).

O novo "povo sacerdotal", a Igreja, não é uma entidade separada do mundo, fechada em si mesma. Igreja e mundo se entrecruzam. A Igreja está no mundo e aí desempenha sua missão, e o mundo não pode atingir sua plena realização se a Igreja não o fermentar com o Espírito do evangelho. "Os cristãos - diz-se na carta a Diogneto - são a alma do mundo". Ora, o sentido da Igreja está em levar o mundo a Deus, ser o caminho de acesso para o encontro com Deus. Por isto, "quando a Igreja toma consciência de si, torna-se missionária' (Paulo VI) e dialoga com o mundo.

Mais do que uma cidadela fortificada", colocada sobre o monte, da qual os cristãos se servem só para demonstrar que ainda estão vivos e ativos, a Igreja é fermento, que impregna o mundo de dentro: é como o sal posto na massa, espalhando nela sua força e preparando-a para o encontro com Deus. A Igreja, assistida pelo Espírito Santo, vigilante pelo exame de consciência do Concílio, escruta os sinais dos tempos e se esforça por interpretá4os à luz do evangelho, para captar toda oportunidade e não deixar que a graça passe em vão.

O cristão, alma do mundo

Mas não só a Igreja, em seu conjunto, é missionária; cada cristão, justificado por Cristo (2ª leitura), é chamado a colaborar, na vida presente, na construção do Reino. É sinal que deve resplandecer aos olhos de todos; é "enviado" a anunciar a palavra, é "responsável" pela palavra. Deve levar ao ambiente em que vive e trabalha aquele calor e zelo que Cristo levou, reconhecendo Cristo em todos e em quem têm necessidade do nosso interesse.

Pe. José Pereira - Colunista
14/06/2008 - Atualizado em 16/06/2008 - 15h02
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