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Reflexão
do X Domingo do tempo comum
Mt 9, 9-13
VEIO
PARA OS PECADORES
Há
algumas categorias de pessoas no evangelho, pelas quais parece que Jesus
tinha verdadeira aversão, instintiva incompatibilidade de caráter:
são os que se consideram 'justos". Diante deles, Jesus se
sente desarmado e quase inútil, Não pode entrar em diálogo
com eles, porque são auto--suficientes, não têm necessidade
de salvação nem de perdão São pessoas rígidas,
incapazes de ir além da justiça; sua religião é
a do "dou para que dês" Jesus descreve sua atitude na
parábola dos operários da vinha (Mt 20,1-16), que se queixam
da generosidade do patrão para com os que chegaram por último.
Na parábola do filho pródigo eles estão figurados
no filho mais velho ciumento da bondade do pai para com o mais novo que
volta para casa (Lc 15,11-32). Seu retrato é o do fariseu que "paga"
a Deus até o mínimo imposto, mas despreza intimamente e
julga, do alto de sua justiça o publicano que invoca misericórdia
(Lc 18,9-14)
Deus busca o homem
A uma religião reduzida à justiça do homem, Jesus
opõe uma religião baseada na misericórdia divina
(evangelho). Citando Oséias (1ª leitura), lembra que os profetas
já negaram o valor dos ritos, ainda que perfeitamente executados,
e a observância meticulosa, mas exterior da Lei, a favor de urna
religião de amor e misericórdia.
As simpatias de Jesus são ao contrário, pelos pecadores,
os desprezados, os “excomungados" do seu tempo, aqueles a quem
as pessoas de bem nem ousavam freqüentar, para não se contaminarem.
Acusam-no de amigo dos publicanos e das pecadoras. Mas Jesus responde-lhes
dizendo que publicanos e prostitutas os precederão no Reino dos
céus, e freqüenta suas casas sem se preocupar com as reações
escandalizadas que suscita nos que se julgam bons. Participando da mesa
dos pecadores, Jesus não só se põe no seu nível,
mas começa a realizar o que prometera em Mt 8,11-2: "Muitos
virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa
com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus, enquanto
os filhos do Reino serão lançados fora, nas trevas”
Jesus tem predileção pelos marginalizados e rejeitados
Toda vez que, no evangelho, Cristo assume o papel daquele que congrega,
dirige sua convocação especialmente às categorias
eliminadas das assembléias judaicas. "Sai imediatamente pelas
praças e estradas da cidade e traze aqui os pobres, estropiados,
cegos e coxos... para que se encha a minha casa” (Lc 14,21.23).
A assembléia judaica excluía essas pessoas: "O cego
e o coxo não entrarão na casa" (2Sm5,8), como excluía
os publicanos e os pecadores. No entanto, parece serem esses os convidados
prediletos de Jesus.
Esta abertura de Cristo a toda a humanidade pecadora, no desejo de levar
todos à salvação, encontra resistência e suscita
escândalo ainda hoje. De fato, em nossos dias ainda existe a tendência
a fechar-se em pequenos oásis de fervor religioso, a considerar
ou a desejar uma igreja feita de "puros", de uma elite, de empenhados.
O sinal da própria fé não se realiza separando ou
dividindo os homens em “justos e injustos”, em "bons"
e maus em “próximos" e “afastados". Sem acrescentar
que muitas vezes o termo de comparação para estabelecer
estas divisões é somente a prática exterior, a pertença
sociológica, isto é, a identificação da vida
de fé com o culto, a prática, a observância. Esta
atitude provém de certa mentalidade farisaica, que Jesus repeliu.
Não se pode racionar a misericórdia
Certa mentalidade farisaica pode também se imiscuir (pelo menos
como tentação) numa praxis pastoral muito exigente no plano
da administração dos sacramentos, pronta a negar com muita
facilidade um sacramento quando não vê disposições
totalmente positivas, como se os sacramentos não fossem gestos
de amor e misericórdia de Jesus, que jamais extingue a mecha que
ainda fumega nem parte o caniço rachado. A celebração
eucarística também deve superar toda tentação
isolacionista. Quando se põe como elemento de divisão entre
os de "dentro" e os de "fora”, não corresponde
à sua realidade de sinal da assembléia escatológica
e messiânica que reúne todos os povos. Não é
mais sinal de comunhão, mas de separação... Por isto,
os primeiros cristãos viram na eucaristia não só
o sacramento do corpo e do sangue de Cristo: viam também um sacramento
de perdão, porque a assembléia não é composta
só de sadios, mas principalmente de enfermos; não só
de justos, mas especialmente de pecadores.
Pe.
José Pereira - Colunista
70/04/2008 - Atualizado em 10/06/2008 - 15h43
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