Reflexão do IX Domingo do tempo comum
Mt 7, 21-27

DIZER E FAZER

O tema dos dois caminhos é tão antigo como a Sagrada Escritura (1ª leitura). A experiência nômade do povo de Israel está na origem desse tema: Israel, de fato, foi constantemente chamado a escolher entre o caminho que leva à meta e o que leva à dispersão e à idolatria. Um vocabulário que se baseia totalmente no termo "caminho" exprime a experiência do povo eleito: extravio, pedra de tropeço, conversão ou volta ao caminho certo, guia que indica a estrada, e pegadas seguidas pelo povo.

Os dois caminhos

O tema dos dois caminhos se encontra no Novo Testamento mais espiritualizado, mas não menos exigente. O cristão deve escolher entre o caminho estreito", que coincide com o plano de Deus e o "caminho largo" que não se preocupa com Deus; entre Deus e Mamon, entre o Espírito e a carne, entre a vida e a morte, entre a luz e as trevas...

Os primeiros cristãos, denominando Cristo e a Igreja com o temo caminho", manifestavam sua vontade de deixar o caminho de dispersão para confiar-se a Jesus como guia, às indicações de sua Palavra é à economia sacramental da Igreja.

O evangelho, na conclusão do sermão da montanha, exprime, de outra forma, o tema dos dois caminhos, das duas atitudes diante da palavra de Deus. Encontra sua unidade na palavra "fazer", "pôr em prática". É preciso "fazer" a vontade do Pai que está nos céus (v. 21), por em pratica" as palavras ouvidas (tema da parábola dos dois filhos: Mt 21,28-30). A parábola das duas casas construídas sobre a rocha ou sobre a areia também trata da oposição entre ouvir apenas e por em prática". Não há religião cristã sem uma opção concreta (o caminho), e não há opção concreta sem empenho ativo (fazer e não só falar).

Como são numerosos, mesmo no povo de Deus, os hábeis oradores, os profetas inúteis, os sábios exegetas... e quão poucos os cristãos empenha-dos, comprometidos com os problemas, dispostos a dar até a vida pelo que dizem!

O teste da vida cristã

O teste não está no plano das palavras, das veleidades ou boas intenções. De fato, só a palavra não é suficiente; é fugaz, sutil, traiçoeira; seduz e oculta, ilude e sugestiona. A medida do teste está no "fazer". A ação é mais facilmente controlável, confronta-se inevitavelmente com as coisas e os acontecimentos, revela o que se é de fato. A ação pode falhar, mas dificilmente consegue ocultar seu insucesso. Os fatos são testemunho público: julgam-nos pelo que somos, nos absolvem ou nos condenam muito mais do que nossas palavras. As ações são, antes, um teste das nossas palavras. No entanto, pode-se trapacear de dois modos: elaborando palavras vazias e declarações inúteis, ou acumulando ações sem alma. As ações e as obras também podem iludir e tornar-se ocasião de complacência farisaica, de segurança e ostentação. Se, por um lado, Jesus põe de sobreaviso os que se firmam nas palavras e estéreis invocações do nome de Deus, por outro, não poupa seus ais àqueles que confiam nas obras, que pensam ser salvos pelas praticas e pela observância vazia das Tradições e da Lei.

"A fé deve ser integrada na vida, isto é, a consciência do cristão não conhece fissuras; é profundamente unitária.

A dissociação entre fé e vida é grave risco para o cristão, principalmente em certos momentos da idade evolutiva, ou diante de certos compromissos concretos".

Nem verbalismo nem eficientismo


Se a nossa fé não pode ser reduzida ao "dizer", a uma oração separada da vida, convém lembrar, entretanto, que ela não coincide tampouco com o "fazer". Isto é lembrado especialmente hoje, quando tudo na sociedade nos leva a medir os valores, os acontecimentos e as pessoas na base do critério da eficiência, do sucesso, do lucro, da promoção na carreira profissional..., isto é, na base de um fazer que nada tem de evangélico. O agir do evangelho nada tem a ver com o conceito de eficiência e sucesso. Pelo contrário, freqüentemente é um agir. do ponto de vista humano, coroado pelo insucesso e pelo malogro mais paradoxal. Humanamente falando, a vida de Cristo não termina com o sucesso, mas com a mais humilhante falência: a condenação, o abandono dos discípulos, a morte infame na cruz. Mas é precisamente neste insucesso que o mistério da salvação e o triunfo da Páscoa lançam suas raízes.

Pe. José Pereira - Colunista
03/06/2008 - Atualizado em 05/06/2008 - 17h03

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