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Reflexão
do quarto Domingo da páscoa
Jo 10, 1-10
Jesus
Ressuscitado manifesta-se nos pastores da Igreja.
A
figura do pastor que guia suas ovelhas era familiar a Israel, povo nômade;
alimentou em tempos sucessivos a meditação religiosa das
relações pessoais com Deus. Seus chefes deviam ser servos
do único pastor; mas, com muita freqüência, seguindo
interesses egoístas e perspectivas políticas errôneas,
traíram, desviaram, depredaram o rebanho de Deus.
3esus se apresenta como o pastor segundo o coração de Deus,
aquele que foi anunciado pelos profetas. Conhece intimamente o Pai e transmite
esse conhecimento aos seus (evangelho). Por isto, ele é a "porta",
o mediador. Conhece intimamente também a nossa condição,
porque como "cordeiro" carregou os pecados de todos nós
(2ª leitura). Conduz os seus com a autoridade de quem ama e deu sua
vida; e eles, na fé, escutam a sua voz e seguem suas pegadas. Seu
sacrifício "pela multidão" exclui qualquer privilégio
e abre a salvação a todos os homens.
Em comunhão de fé e de amor
Antes de voltar para a direita do Pai, Jesus confiou ao colégio
dos apóstolos (e particularmente a Pedro, como chefe desse colégio)
o seu ministério pastoral junto àqueles que já chegaram
à porta do redil e aos que ainda virão. Esse serviço
torna efetiva a presença de Cristo ressuscitado no meio dos seus,
prolonga-a no tempo (sucessão apostólica) e no espaço
(colegialidade). Como todas as realidades que pertencem à Igreja
peregrinante, o serviço pastoral é de ordem sacramental,
e remonta ao Cristo Senhor que, invisível, leva os seus à
comunhão de vida com o Pai através dos ministros da palavra
e dos sacramentos. Especialmente na eucaristia, centro da instituição
eclesial, aquele que preside à assembléia tem consciência
de personificar o Cristo enquanto, associando os batizados ao seu sacrifício,
fá-los entrar numa fraternidade universal e os funde numa comunhão
de amor. Mas também no "governo" e na responsabilidade
perante as comunidades e cada irmão individualmente, os pastores
sabem que sua autoridade nasce da obediência a Cristo, a quem todo
o corpo da Igreja deve buscar, e cuja voz lhes compete exprimir.
Pastores, guias dos irmãos
Falar hoje dos "pastores" da Igreja não é fácil,
devido às incrustações históricas que deformaram
as perspectivas e as mentalidades, mesmo entre os fiéis. Restituir
aos pastores e a suas funções na Igreja a verdade e a autenticidade
é tarefa urgente hoje.
O papa, pastor supremo, ainda é visto em muitos ambientes como
um chefe político, um diplomata, a expressão de um monolitismo
e de um absolutismo ultrapassados. Importa apresentá-lo como o
centro de unidade e coesão da Igreja, o que realmente é.
O bispo não é um solene dignitário, um alto funcionário
do espírito, distante e separado do seu rebanho; é o centro
de unidade da Igreja local, o mestre e pai da família diocesana.
O pároco e os sacerdotes empenhados no ministério pastoral
não são burocratas e funcionários a quem nos dirigimos
para pôr em dia as nossas praticas, não são altas
personagens a quem se recorre para obter cartas de recomendação,
nem distribuidores de esmolas ou de sacramentos. São acima de tudo
pastores' totalmente dedicados a seu povo, a quem servem com amor, respeito
e dedicação total.
Delegada a alguns homens, a autoridade na Igreja não pode ser mais
do que o sinal do governo do Senhor: não é absoluta; é
uma autoridade que está em relação com o Cristo ressuscitado.
A obediência do cristão é uma obediência de
fé, oferecida ao Senhor, reconhecido nos sinais vivos, isto e,
nas pessoas que dirigem a Igreja.
Cristãos dóceis ou rebeldes?
Cabe aqui uma consideração a respeito do rebanho, isto é,
da comunidade e de cada um dos que crêem; não devem eles
unicamente ser exigentes com seus pastores, como magistério, com
a Igreja como instituição (o que corresponde à correção
fraterna); devem também sentir e manifestar-lhes seu profundo amor,
impregnado de franqueza, caridade e obediência. Ao lado do Espírito
de crítica e de rebelião, que grassa mesmo no seio da Igreja,
não faltam os testemunhos. O cardeal Newman, que se tornou católico
por devoção à Igreja, vê-se, em certo momento,
impedido de trabalhar pela própria Igreja. Menosprezado pelos protestantes,
mal interpretado por muitos católicos, olhado com desconfiança
por certos bispos, suspeito de heresia, carregou sua cruz com paciência
heróica, até o momento em que pôde retomar a atividade
apostólica que era o objetivo de sua vida. "Será necessário
superarmos a nós mesmos, morrendo como grãozinhos de trigo
no campo da Igreja, em lugar de morrermos como revolucionários
diante de suas portas" (K. Rahner).
Pe.
José Pereira - Colunista
15/04/2008 - Atualizado em 18/04/2008 - 15h30
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