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Reflexão
do 3º. Domingo da Quaresma
JO 4, 5-42
Cristo, água para nossa sede
O
tema da água que salva volta com freqüência na liturgia
quaresmal. A partir deste domingo, a Igreja oferece à comunidade
cristã que revive seu batismo uma síntese da história
da salvação, servindo-se do rico simbolismo da água.
A
água tem sua linguagem
Necessária para a existência de todos os seres vivos, a água
é um elemento "natural" que nos é dado, não
é fruto de trabalho: a água viva de uma fonte exprime também
o milagre renovado da vida. Fazendo brotar água da rocha, Deus
se manifesta salvador de seu povo e o põe em condições
de prosseguir a viagem até a terra prometida (1ª leitura).
Repensando essas maravilhas de Deus nos momentos mais obscuros e difíceis
de sua história, Israel projeta para um futuro mais ou menos distante
a posse de uma terra de águas abundantes, na qual o deserto se
transformará em viçoso pomar. A abundância de água
se torna símbolo da abundante salvação que virá
unicamente de Deus: um rio que brota do templo purificará o povo,
saciará sua sede, fecundará a terra.
No Novo Testamento, a água exprime simbolicamente o dom do Espírito
para a geração de uma humanidade nova. Cristo, sobre quem
desceu o Espírito no momento do batismo, anuncia um renascimento
na água e no Espírito, promete uma abundância de água-Espírito
para os que crêem (evangelho). Sua pessoa se identifica, pois, com
a Rocha (como observava são Paulo, recapitulando os "sinais"
do deserto, 1Cor 10,4), o novo Templo, a fonte que mata a sede na vida
eterna. João vê o cumprimento do sinal na hora da morte-glorificação
de Jesus, quando ele "entrega o espírito" e do seu lado
traspassado correm sangue e água.
A água do nosso batismo
A água do batismo pode, portanto, lavar os pecados e fazer renascer
os filhos de Deus em virtude do sangue de Cristo, fonte de todo perdão.
Quem confessa que Cristo é o messias, o enviado de Deus, aceita
que a salvação se faça da maneira e no momento querido
por Deus; compreende que sua sede profunda só é saciada
pelo dom de Cristo; toma-se, para os que o cercam como a mulher samaritana-,
revelador da presença que tudo transforma (evangelho).
No momento do batismo, a Igreja, que através da catequese preparou
a profissão de fé no Filho de Deus, recapitula em sua oração
os acontecimentos salvíficos relacionados com a água e cumpre
a ordem de Cristo: batizai em nome da Trindade. Assim, como gostava de
repetir Agostinho, "pela união da palavra (da fé) com
o elemento (água) realiza-se o sacramento", dom de Deus e
livre resposta do homem.
Sede de valores numa sociedade de consumo
Encontramo-nos diante da sede de um povo no deserto, da sede de uma mulher
no poço. A sede é símbolo de uma necessidade íntima,
vital, torturante. Além da sede fisiológica há uma
sede mais profunda em todo homem, em toda sociedade, em toda comunidade
do nosso tempo: buscamos cada vez mais "coisas para sacia-la; nada
nos basta, nada nos satisfaz. Nossa civilização só
nos oferece "bens de consumo", não valores espirituais.
Convida-nos ao oportunismo, ao mais fácil, mais seguro, mais cômodo.
Os ideais de coerência, de sinceridade, de amor, que existem em
todos os homens, são em geral frustrados, traídos por quem
os propugna ou pelo indivíduo incapaz de resistir à pressão
dos que o cercam. Todos falam do valor da colaboração, todos
reconhecem que somos globalmente responsáveis pelo caminho da humanidade;
no entanto, o que encontramos é insensatez, orgulho, instintos
de domínio, de grandeza, inclinação para a agressividade,
para um prazer ás vezes exacerbado, incontrolado e irracional.
Mas muitas vezes renunciamos, e justificamos a renúncia definindo
os valores como "sonhos de adolescente".
A revolta dos jovens tem sua raiz nessa sede não aplacada, nessa
decepção por tudo que lhes é oferecido, tão
distante das verdadeiras e profundas exigências do homem, que tem
hoje maior consciência dos valores de fraternidade, justiça,
amor, solidariedade.
Não é a primeira vez que, no decorrer da história,
o homem enfrenta desafios que põem em discussão modos de
pensar e pedem soluções inéditas. Continuamente o
homem faz a experiência de que aquilo que conquistou nunca é
uma conquista definitiva. A técnica, as descobertas científicas
não matam a sede de segurança, de esperança, de felicidade
que todo homem sente. Lentamente, descobre ou tem a intuição
de que só um "homem-infinito" pode dar-lhe o que busca
no meio da confusão.
Pe.
José Pereira - Colunista
23/02/2008 - Atualizado em 26/02/2008 - 15h55
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